Estampa as tuas ilustrações: guia para artistas

Mãos de um ilustrador a desenhar uma serpente com flores no iPad, com o esboço em papel e um café ao lado, numa mesa de café à noite

Se só tens dois minutos: manda vetor (PDF, AI ou SVG) ou um PNG com fundo mesmo transparente a 300 dpi ao tamanho final. Numa t-shirt, o peito dá até 16 × 16 cm e as costas até 32 × 36 cm. Se a tua arte tem cor a mais para bordar, estampa-se; se tem seis cores chapadas, o bordado fica melhor. E antes de encomendares vinte, faz uma. O resto do artigo explica porquê.

Este artigo é para quem já tem a arte feita. Ilustradores, designers, pintores, tatuadores, gente que desenha para si e a certa altura pensa: isto ficava bem numa t-shirt. Depois disso, a pergunta seguinte costuma ser sempre a mesma, e é a mais difícil de responder sozinho: a minha imagem serve?

No Matter Studio estampamos e bordamos peças todos os dias, muitas delas a partir de trabalhos originais. Este guia é o que dizemos a quem nos escreve com um ficheiro e uma dúvida. Sem vender nada, sem prometer magia, e a dizer também o que não resulta.

A tua arte não foi feita a pensar em tecido

Uma ilustração pensada para ecrã vive com luz emitida por trás e detalhe infinito. Uma pintura em papel tem um branco perfeito à volta. O tecido não tem nada disso: é opaco, tem cor própria, tem textura, dobra-se, estica e vai à máquina de lavar.

No entanto, isto não é um problema, é só uma tradução. Na verdade, o erro mais comum não é ter má arte, é entregar arte excelente sem a adaptar. Antes de qualquer coisa técnica, faz três perguntas ao teu trabalho:

  • Funciona a três metros de distância? Ninguém vê uma t-shirt encostado a ela.
  • O que é que se perde se tirares metade do detalhe? Se a resposta for “nada”, tira.
  • Sobrevive sem o fundo? Muita ilustração depende do fundo branco do papel, e esse fundo vai desaparecer.

O teste dos 30 centímetros

Este teste é o mais barato que existe e, ainda assim, quase ninguém faz. Imprime a tua arte em papel ao tamanho real a que vai ser estampada, recorta e prende com fita a uma peça que já tenhas. Veste-a. Olha ao espelho a dois ou três metros.

Em noventa segundos, portanto, percebes coisas que nenhum mockup te diz: que a linha fina desapareceu, que o texto não se lê, que está grande demais, que ficava melhor mais acima. Para teres a escala certa, estes são os tamanhos com que trabalhamos:

  • Peito centro ou peito esquerdo: até 16 × 16 cm numa t-shirt
  • Frente completa: até 28 × 28 cm
  • Costas completas: até 32 × 36 cm
  • Bordado em boné: até 10 × 8 cm

Uma folha A4 tem 21 × 29,7 cm. Se conseguires imaginar a tua arte dentro de uma A4 ao peito, já tens noção do que é uma frente completa.

O que sobrevive à estampagem e o que se perde

Cá em casa estampamos em DTF, ou seja, imprimimos a cores sobre uma base branca aplicada por baixo. Na prática significa que as cores se aguentam mesmo em tecido escuro, o que é ótima notícia para quem trabalha com cor saturada. Mas há limites e é melhor saberes quais antes de te apaixonares pelo resultado no ecrã.

Linhas finas

Linhas com menos de cerca de meio milímetro à escala final tornam-se frágeis: podem sair irregulares ou fechar-se. Por isso, se a tua ilustração é feita de linework fino, tens duas saídas: aumentar o tamanho geral da peça de arte, ou engrossar as linhas de propósito na versão para estampar. Uma ilustração para impressão em papel A5 raramente pode ir tal e qual para 28 cm sem ganhar peso de traço.

Gradientes e transições suaves

Por outro lado, gradientes longos e desvanecidos até ao transparente são o ponto fraco de qualquer transferência. O que no ecrã é uma passagem suave costuma sair no tecido com um degrau visível ou uma borda suja onde a tinta deixa de existir.

Duas soluções que funcionam mesmo: converter o desvanecimento em trama de pontos (halftone), que tem história na estampagem e dá um resultado intencional em vez de acidental; ou terminar o gradiente numa cor sólida em vez de o deixar dissolver-se no nada.

Aguarela, grão e pintura digitalizada

Já o trabalho pintado à mão resulta muito bem estampado, embora com um cuidado: quando digitalizas uma pintura, o “branco” do papel não é branco. É um cinzento levíssimo, e como a estampagem assenta numa base branca, esse cinzento aparece como um retângulo fantasma à volta da tua arte.

Assim sendo, digitaliza a 600 dpi, limpa o fundo até ser mesmo transparente e verifica ao pormenor. Se a tua pintura tem manchas de aguarela que se esbatem nas pontas, decide o que queres: ou aceitas o corte, ou deixas a mancha terminar com alguma densidade.

Branco a fazer de transparente

Do mesmo modo, se a tua arte tem elementos brancos que só se leem porque o fundo do ficheiro é branco, numa peça preta eles vão continuar brancos, e a composição muda por completo. Vale a pena abrir a ilustração sobre um fundo da cor da peça antes de decidir.

O halo branco: o erro que mais estraga ilustrações

Este merece secção própria porque é invisível no ecrã e óbvio na peça. Quando removes um fundo, ficam quase sempre pixéis semitransparentes na borda, aqueles com 10% ou 30% de opacidade que suavizam o contorno. No teu monitor, isso é um contorno bonito. Na estampagem, a base branca é aplicada por baixo de qualquer pixel que exista, mesmo que quase invisível, e o resultado é um halo esbranquiçado e sujo a contornar toda a tua ilustração.

Felizmente, a correção é simples quando se sabe: força cada pixel a estar ou totalmente presente ou totalmente ausente. No Photoshop consegues isso pelo canal alfa com níveis ou limiar, e a maior parte dos programas tem uma opção de defringe ou remoção de halo. Um contorno de 1 pixel na cor do próprio desenho também fecha bem a borda.

Acima de tudo, guarda em PNG com fundo transparente, nunca JPG. Um JPG não guarda transparência e traz sempre um fundo branco, que vai ser estampado como um retângulo sólido.

Cor: o ecrã mente, e mente sempre para melhor

O teu monitor emite luz. A tinta reflete-a. Nenhum ecrã consegue mostrar-te exatamente o que vai sair, e a diferença é maior precisamente nas cores de que os ilustradores mais gostam.

  • Neons e fluorescentes não existem em tinta. Um verde-lima elétrico no ecrã sai sempre mais calmo. Não é defeito, é física.
  • A cor da peça entra na conta. Mesmo com base branca, uma cor clara aplicada sobre tecido escuro lê-se de forma diferente da mesma cor sobre natural ou branco.
  • Se vais vender a mesma arte em cinco cores de peça, olha para as cinco. Uma paleta que canta em branco pode desaparecer em bege.

Por fim, se a tua marca tem uma cor exata que é inegociável, diz-nos antes. É melhor conversarmos sobre a aproximação possível do que receberes uma peça e ficares desiludido com um azul que ficou meio grau mais escuro.

Resolução, sem mitos

A regra que anda por aí é “300 dpi”. A regra é boa, contudo está incompleta, porque dpi sozinho não quer dizer nada: só faz sentido ao tamanho a que vais imprimir.

Em termos práticos, a conta é esta: divide os pixéis pela largura em centímetros e multiplica por 2,54. Uma imagem de 3300 pixéis de largura estampada a 28 cm dá cerca de 300 dpi, que é ideal. A mesma imagem a 28 cm com apenas 800 pixéis dá 72 dpi, que é o que se vê quando alguém aumenta uma imagem tirada do Instagram.

  • Vetor (PDF, AI, SVG): não tem resolução, cresce até onde quiseres. É sempre a melhor opção quando existe.
  • Imagem (PNG, JPG, WEBP): aponta a 300 dpi ao tamanho final, aceita-se bem a partir de 150.
  • Abaixo de 70 dpi o nosso personalizador avisa-te enquanto estás a montar a peça. É um aviso, não um bloqueio: podes continuar, mas a decisão passa a ser tua e informada.

Se quiseres o passo a passo técnico de exportação, temos um guia só sobre isso: como preparar o ficheiro para personalizar roupa. Aceitamos ficheiros até 20 MB nos formatos JPG, PNG, SVG, WEBP, PDF e AI. Se o teu original é enorme, exporta uma versão ao tamanho final em vez de mandar o ficheiro de trabalho inteiro.

A tua ilustração aguenta ser bordada?

Já escrevemos um artigo inteiro a comparar as duas técnicas, com durabilidade, custos e casos de uso: DTF ou bordado, qual é a melhor técnica. Aqui interessa-nos só uma pergunta, a que é tua: o que é que acontece à tua ilustração quando ela passa a linha de bordar?

O bordado não é uma estampagem com outro acabamento, é outra linguagem. A linha tem espessura física, e isso muda tudo o que podes desenhar.

Fica bem bordado: monogramas, logótipos de traço sólido, lettering forte, ilustração reduzida a formas fechadas, símbolos simples. Ganha textura, relevo e uma sensação de peça acabada que a estampagem não dá.

Não fica bem bordado: gradientes, aguarela, retratos, sombreado, tudo o que dependa de transições. E detalhe muito pequeno: uma linha abaixo de cerca de 1 mm desaparece ou parte, e letras com menos de 6 mm de altura tornam-se ilegíveis.

Na prática, bordar uma ilustração significa reduzi-la a seis cores sólidas, que é o limite com que trabalhamos. Se não consegues imaginar a tua arte em seis cores chapadas sem perder a alma, escolhe estampagem.

O bordado leva uma matriz, que é o trabalho de converter o teu desenho em pontos de agulha. São 15 € pagos uma única vez por encomenda, não por peça: bordar uma peça ou trinta com o mesmo desenho leva a mesma matriz. As áreas vão até 20 × 20 cm em hoodies e sweats, e até 10 × 8 cm em bonés.

Faz uma peça primeiro. Sempre.

É o conselho mais útil deste artigo inteiro e o que mais dinheiro poupa a quem está a começar.

Como não temos mínimos, podes encomendar exatamente uma peça. Faz isso. Veste-a uma semana, lava-a três vezes, fotografa-a com luz natural. Desta forma vais aprender se o tamanho estava certo, se a cor te agrada na vida real, se aquele detalhe que te preocupava se nota mesmo. Só depois é que faz sentido pensar em quantidades.

iPad numa mesa de café a mostrar o personalizador do Matter Studio com uma t-shirt oversize preta com uma flor em linha branca, uma unidade no carrinho
Uma peça, um tamanho, preço à vista: o teste mais barato que podes fazer antes de encomendar em quantidade.

Além disso, quando pensares em quantidades, os escalões ajudam: a partir de 8 unidades o preço por peça desce 10%, a partir de 20 desce 20%, a partir de 30 desce 26%. Não precisas de decidir tudo hoje.

Entretanto, uma nota honesta sobre prazos: não temos stock parado. Os materiais são encomendados para cada trabalho, por isso conta com alguns dias antes da produção começar. Encomendas acima de 40 peças levam mais uns dias, e acima de 50 um pouco mais. Se tens uma data (uma feira, um lançamento, uma exposição), diz-nos logo e planeamos a partir daí.

Direitos: a parte que ninguém gosta de ler

Não somos advogados e isto não é aconselhamento jurídico, mas há três coisas que vale mesmo a pena teres presentes.

A tua arte é tua. Mandares-nos um ficheiro para estampar não nos dá direitos sobre ele. Produzimos o que nos pedes e o trabalho continua teu.

As fontes têm licença. Uma fonte que descarregaste de graça pode ser gratuita para uso pessoal e paga para uso comercial. Se vais vender peças com lettering, confirma a licença antes (a página de licenciamento da Adobe Fonts explica bem as diferenças entre tipos de licença). É um detalhe pequeno que dá problemas grandes.

Imagens geradas por IA e trabalho de terceiros. Se usares uma ferramenta de IA, lê os termos dessa ferramenta sobre uso comercial, porque variam bastante e o enquadramento legal ainda está a assentar. E o óbvio: personagens, logótipos e obras de outros não se estampam para vender, por muito que a peça fique bonita.

Como pôr um preço na tua arte

Em relação ao preço, muito artista olha para o que os outros cobram. É o caminho mais rápido para trabalhar de graça, porque a estrutura de custos do outro não é a tua.

Faz a conta ao contrário, começando pelo que sai do teu bolso: o custo real da peça produzida (que vês a atualizar-se enquanto montas o design no personalizador), a matriz se for bordado, os portes, a embalagem, e a percentagem que a plataforma leva se vendes online. Assim, o que sobra é a tua margem, e é dela que sai o pagamento das horas que passaste a desenhar.

Dois detalhes que mudam a conta mais do que parece: a matriz de bordado é uma vez por encomenda, por isso dilui-se se produzires mais peças de cada vez. E os escalões de quantidade mexem no custo unitário, o que significa que a mesma peça pode ter margens muito diferentes conforme a forma como agrupas a produção.

Em suma, se a tua arte é original e tem seguidores, não tenhas medo de cobrar por isso. Quem compra uma peça a um ilustrador não está a comparar preços com uma t-shirt lisa de supermercado, está a comprar o teu trabalho.

Checklist antes de nos enviares o ficheiro

  • Vetor sempre que existir (PDF, AI ou SVG). Se não, PNG a 300 dpi ao tamanho final.
  • Fundo transparente a sério, sem pixéis semitransparentes na borda.
  • Texto convertido para curvas, para nenhuma fonte se perder pelo caminho.
  • Arte já ao tamanho real a que vai ser estampada.
  • Linhas finas engrossadas para a escala final.
  • Gradientes que terminam em cor sólida ou convertidos em trama.
  • Ficheiro visto sobre a cor da peça, não sobre branco.
  • Para bordado: seis cores sólidas, sem gradientes, letras acima de 6 mm.
  • Teste em papel, ao tamanho real, preso a uma peça.
  • Ficheiro com menos de 20 MB.

Perguntas frequentes

Sobre o ficheiro

Que resolução precisa uma ilustração para ser estampada?

O ideal são 300 dpi ao tamanho final da estampagem, e aceita-se bem a partir de 150 dpi. Um ficheiro vetorial (PDF, AI ou SVG) não tem resolução e serve sempre. No personalizador do Matter Studio aparece um aviso automático se a imagem ficar abaixo de 70 dpi ao tamanho escolhido.

Tenho de converter a minha arte para CMYK?

Não. Envia em RGB, que é o modo em que trabalhas e o que preserva mais cor. A conversão para tinta acontece no nosso fluxo de impressão. O que vale mesmo a pena saber é que neons e fluorescentes não existem em tinta e vão sair sempre mais calmos do que no ecrã.

Sobre tamanhos, técnicas e quantidades

Qual é o tamanho máximo de uma estampagem numa t-shirt?

No Matter Studio, o peito centro e o peito esquerdo vão até 16 × 16 cm, a frente completa até 28 × 28 cm e as costas completas até 32 × 36 cm. Para teres noção, uma folha A4 mede 21 × 29,7 cm.

Quanto custa a matriz de bordado?

A matriz custa 15 € e é paga uma única vez por encomenda, não por peça (12 € em sacos e nécessaires). Bordar uma peça ou trinta com o mesmo desenho leva a mesma matriz, por isso o custo dilui-se quanto mais peças produzires de cada vez.

Há quantidade mínima para estampar as minhas ilustrações?

Não há mínimos. Podes encomendar uma única peça, o que é a melhor forma de testar antes de investir. A partir de 8 unidades o preço por peça desce 10%, a partir de 20 desce 20% e a partir de 30 desce 26%.

Sobre direitos

Posso vender peças com uma fonte que descarreguei de graça?

Depende da licença da fonte. Muitas fontes gratuitas são livres para uso pessoal mas exigem licença paga para uso comercial, o que inclui vender peças de roupa. Confirma sempre a licença antes de lançares uma coleção com lettering.

Posso estampar imagens geradas por inteligência artificial?

Tecnicamente sim, mas lê os termos da ferramenta que usaste sobre uso comercial, porque variam bastante. Há ainda a questão de obras geradas por IA poderem não ser protegidas por direito de autor em várias jurisdições, o que significa que podes não conseguir impedir que outra pessoa use a mesma imagem.

E se o ficheiro não estiver perfeito?

Finalmente, importa dizer que olhamos para todos os ficheiros antes de produzir. Se virmos alguma coisa que não vai correr bem, por exemplo a resolução curta de mais para o tamanho pedido ou um halo na borda, dizemos antes de imprimir seja o que for. Preferimos um email a mais do que uma peça que te desilude.

Se quiseres experimentar, o personalizador deixa-te carregar a tua arte, escolher a área, ver o preço a mudar em tempo real e guardar o design para voltares depois. Não é preciso encomendar nada para brincar com ele.

E se quiseres aprofundar, temos dois artigos que continuam este: como preparar o ficheiro para personalizar roupa, mais técnico e passo a passo, e como criar merch do zero, para quem está a pensar no projeto todo e não só na arte. Se andas a decidir o tipo de peça, o guia dos cortes de t-shirt ajuda a perceber em que silhueta é que a tua ilustração assenta melhor.

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